Debates PSOL

REPETIR O PT? Acerca da política de alianças

Psol-bandeiras
Escrito por MES

Bernardo Corrêa – sociólogo e membro da direção estadual do MES/PSOL do RS

 

“Aceitar o combate quando é claramente vantajoso para o inimigo e não para nós constitui um crime, e não servem os políticos da classe revolucionária que não sabem “manobrar”, que não sabem concertar “acordos e compromissos” a fim de evitar um combate que todos sabem ser desfavorável”.

Lenin – Nenhum compromisso?

No ano passado a lei da Mordaça foi aprovada. A partir dela, o PSOL poderá excluído dos debates da TV na campanha eleitoral deste ano. Foi endereçada ao nosso partido para impedir seu crescimento, já que a exigência mínima para participar dos debates é de 09 deputados federais. Quem foi o articulador da lei? Eduardo Cunha. Apelamos a todos: Lula, FHC e Dilma. Cabia a Dilma vetar ou sancionar. Apesar dos apelos do PSOL, do golpe contra a democracia que a lei Cunha promovia, Dilma sancionou, e a lei agora pode ser usada contra o direito democrático do debate. Precisaremos combatê-la nas ruas com militância e com capacidade de manobrar para poder vencer as barreiras que a burguesia nos impõe.

As discussões táticas pós-traição do lulismo aqui no Brasil, geralmente, esbarram na afirmação “não podemos repetir o PT” o que é correto. Também é comum que este receio seja parte das preocupações da fração do movimento de massas que apoia o PSOL, que fez uma experiência trágica com o governo petista e sua política de conciliação de classes no interior do Estado Burguês. O nosso partido que se formou a partir de correntes dissidentes do PT e do PSTU e de algumas defecções do PDT, PCdoB e PSB, tem como espectro essa experiência frustrada, que muitas vezes se apresenta como desconfiança das massas na fórmula “se vocês chegarem ao poder farão igual aos outros”, e em outras, apresenta-se receio de setores mais avançados em ter qualquer traço parecido à trajetória do PT que busca construir uma alternativa àquela traição.

Debates em torno do financiamento privado, sistema de alianças, votações nos parlamentos… muitas vezes dividem correntes e ocupam mais tempo da militância do que os elementos estratégicos, que envolvem uma análise honesta e científica das condições de luta, da correlação de força, das melhores palavras-de-ordem para os problemas mais urgentes, das possíveis unidades de ação que se possa fazer no movimento e na ação de rua para que estas consignas sejam vitoriosas, etc.  Precisamos localizar os temas táticos em sua dimensão estratégica, sob pena de incorrermos em equívocos, no mínimo, apressados.

Afinal, qual foi o conteúdo real da traição do PT? Será que foi ter feito inúmeras alianças com partidos de classe média como o PSB, PDT ou o PV, em seus áureos tempos? Será que foi ter aceitado financiamento privado em sua campanha, quando isso não significava compromissos de classe? Em nossa opinião, após o balanço da derrota de 1989, a direção nacional do PT começou a operar uma mudança na natureza de classe das tarefas, da direção e do programa do partido. Passou a considerar a administração do Estado sua principal tarefa histórica e jogando a ilusão reacionária a todo o povo de que era possível concertar interesses antagônicos como se fosse um governo “de todos”.

Com essa definição política estratégica, buscou aliança com setores da burguesia (com o PL inicialmente, com o PMDB e a base alugada, posteriormente) para a confluência de um bloco de poder que tinha como centro o enriquecimento de dirigentes políticos e de burgueses “parceiros” em seu projeto, como as empreiteiras, os fundos de pensão e o setor do agronegócio, entre outros. Esta foi a verdadeira traição! A mudança de trincheira! Se tornar enquanto governo, fiador dos interesses dos ricos, amortecendo as lutas sociais por meio de uma cooptação ativa de suas lideranças. É isso que não se deve repetir do PT, é isso que deve ser denunciado e combatido como tragédia da classe trabalhadora brasileira. Foi essa crença, inclusive, que destruiu o PT moral e politicamente. Não seguiremos este caminho, já poderíamos tê-lo seguido, convites nunca faltaram, justamente para isso é que fundamos o PSOL. São princípios que nos movem, não conveniências.

Com relação à aproximação feita com o partido REDE em Porto Alegre, alguns agrupamentos políticos de esquerda têm expressado discordância com a tática levada à frente pelo MES, corrente majoritária do PSOL gaúcho (outros inclusive com o PPL, um partido com uma dinâmica recente de aproximação às posições do PSOL).

Os companheiros Matheus Gomes e Rodrigo Claudio, dirigentes importantes que romperam há pouco com o PSTU, em texto divulgado pelas redes sociais nos acusam de “repetição de métodos do ciclo petista” e afirmam que:

“Os argumentos utilizados pelos companheiros da direção do PSOL são muito parecidos com o que a direção do PT utilizava para chegar as prefeituras: “É preciso construir uma coligação para governar e garantir maioria na Câmara de Vereadores”, “precisamos de mais tempo de TV para que sejamos viáveis eleitoralmente”. Não concordamos com essa argumentação.

Em primeiro lugar, esta nunca foi a argumentação para defender a coligação com a Rede, pois agregam pouquíssimo nos dois quesitos, o grave é que sem aliança, podemos estar fora dos debates, objetivamente. De nossa parte, achamos um tema importante, pois muitas vezes ao não querer “repetir o PT”  – muitas vezes absolvendo a direção do PT por não conseguir determinar o conteúdo estratégico da traição, mas apenas identificar suas manifestações táticas -, acaba-se por abandonar a própria política. Não qualquer uma, mas a nossa, que é caracterizada pela disputa do poder político para os trabalhadores como centro e que se move taticamente por meio de divisões e coalizões entre interesses particulares de cada classe social, para que possam ser coadunados em um programa para o conjunto das classes, sob a direção dos trabalhadores. De acordo com Lenin:

“Chama-se compromisso em política ao abandono de certas exigências, à renúncia a uma parte das reivindicações próprias, em virtude de um acordo com outro partido. A ideia habitual das pessoas comuns sobre os bolcheviques, sustentada pela imprensa que calunia os bolcheviques, consiste em que os bolcheviques nunca aceitam quaisquer compromissos com ninguém. Tal ideia é lisonjeira para nós, como partido do proletariado revolucionário, pois prova que até os próprios inimigos são obrigados a reconhecer a nossa fidelidade aos princípios fundamentais do socialismo e da revolução. Mas, no entanto, é preciso dizer a verdade: tal ideia não corresponde à realidade”.

Mas qual o critério para que se estabeleçam os compromissos? Ainda de acordo com Lenin, “Preparar uma receita ou uma regra geral (nenhum compromisso!) para todos os casos é um absurdo. É preciso ter a cabeça no lugar para saber orientar-se em cada caso particular”. Não são princípios abstratos que definem um sistema de alianças, mas as condições para realizar tal o qual tarefa, que faça avançar a luta dos trabalhadores. No combate aos esquerdistas alemães que diziam aos quatro ventos “nenhum compromisso!” Lenin vaticinava: “Não é possível que os esquerdistas alemães ignorem que toda a história do bolchevismo, antes e depois da Revolução de Outubro, está cheia de casos de manobra, de acordos e compromissos com outros partidos, inclusive os partidos burgueses!”

Primeiramente é preciso observar as condições de luta, a correlação de forças. Se caracterizássemos que o Brasil está passando por um período fascista, produto de um golpe de Estado, estaríamos buscando compromissos com frações democráticas da burguesia (isso mesmo, dos inimigos!) para combater o inimigo maior que busca destruir fisicamente as organizações democráticas, anticapitalistas ou dos trabalhadores. Não é o caso. Logo, é evidente que não podemos estabelecer qualquer espécie de compromisso com os inimigos de classe, ou seja com os partidos orgânicos da classe dominante e/ou dirigentes dos interesses dos capitalistas, pois isso seria uma traição nesta situação política, uma rendição.

O caso concreto é uma disputa eleitoral, na qual se busca a partir de um programa e uma confluência de setores plebeus e pequeno-burgueses dar um sinal positivo à esquerda, de que é possível experimentar uma fatia de poder local, como trincheira de esperança, mobilização e exemplo e é possível justamente “não repetir o PT”. Não se trata de uma revolução social, na qual só se pode contar com as forças definidas claramente por ela, para combater quem está contra. Mesmo nesse caso a divisão das classes médias e da classe dominante seriam determinantes.

Este combate dentro da legalidade deles se dá em meio a um sem número de restrições produtos da Lei da Mordaça, a minirreforma política que Cunha encabeçou, que restringe brutalmente a possibilidade de participação nos debates, claramente endereçada ao PSOL e seus aliados de sempre. Há uma definição nossa, queremos disputar realmente esta fatia do poder local e acreditamos poder galvanizar um programa que ajude a avançar a consciência e a organização populares sem capitular às classes dominantes, sem com isso, renunciar aos compromissos com partidos de classe média, sem envolvimento com a corrupção e que aceitem a liderança de Luciana nesse processo.

O passo político, de uma organização revolucionária dirigir uma capital como POA, se afronta totalmente aos principais interesses burgueses da cidade, palco das lutas democrático-revolucionárias de junho de 2013, e muito bem identificada por Harvey como novo local de extração de renda diferencial urbana. É ela também o palco da especulação imobiliária, das máfias dos transportes, da corrupção governamental e da resistência a tudo isso. É preciso delimitar as forças sociais que possam ser aliadas e ver quais superestruturas políticas correspondem a elas para vencer o combate e não apenas marcar posição.

Mais uma vez seguindo o principal dirigente dos bolcheviques, apenas os ingênuos não podem ver que “a democracia pequeno-burguesa é sempre menos homogénea do que a burguesia e o proletariado, de dentro desse bloco ouvir-se-iam, inevitavelmente, duas vozes”. É o caso concreto da Rede, um partido que não se define como classista, que tem vasos comunicantes com a burguesia, que vacila, como a classe média que ele representa, está entre as vozes da conservação e vozes que querem mudança. Não à toa, assinaram junto com nossa bancada no parlamento iniciativas importantíssimas como o pedido de cassação de Cunha. O sectário diria que o novo é o MES buscar aproximação com um partido vacilante, pequeno-burguês, ou como queira adjetivar-se. Pois nós dizemos que o novo é ter uma fração dos democratas de classe média que se aproximam de posições como as de Luciana Genro, que dispensam apresentações acerca de seu conteúdo.

Ou alguém acha que a classe dominante local e seus políticos lacaios não está atuando para evitar tal deslocamento?  Ou alguém acha que as inúmeras candidaturas burgo-nanicas inscritas no primeiro turno não têm uma estratégia clara de tirar o PSOL dos debates, a partir do precedente legal? Acham que teremos moleza? Se achássemos, me preocuparia, pois teríamos alguma concessão estratégica em vista, sei que não temos. Portanto, a vida será dura e necessitaremos manobrar para sobreviver aos ataques que estão sendo orquestrados contra nós. Há uma estratégia clara das frações políticas do poder burguês em levar a disputa para o segundo turno com um dos seus e o PT. Evidentemente, seria muito mais seguro ganhar ou perder, pois em nenhum caso o PT enfrentaria os interesses mais essenciais da burguesia da cidade, como consequência de seu transformismo. O partido não tem como dar nenhum sinal ao futuro, apenas responder sobre o passado traído.

Não nos resignaremos frente a esta estratégia. Usaremos todas as armas que não contradigam nossos princípios para vencer este combate e fazer de Porto Alegre uma cidade rebelde, contra o ajuste de Temer, em defesa dos direitos dos 99% contra os interesses do 1% mais rico e para afirmar de forma concreta, a todo o povo que poderá governar mobilizado, que não vamos repetir o PT. Venceremos!


Referências

 

V.I. LENIN. Sobre os compromissos. https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/09/16.htm

V.I. LENIN. Nenhum compromisso? In: Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo.

 

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