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PROJETO NACIONAL NÃO É FRIBOI – Resposta a Breno Altman

Funcionários de abatedouro em São Paulo.    29/05/2007    REUTERS/Paulo Whitaker
Escrito por MES

Por Bernardo Corrêa – sociólogo e militante do PSOL/MES-RS

Uma das grandes qualidades dos analistas políticos e pensadores, muitas vezes, não é formular as melhores respostas, mas as melhores perguntas para os problemas mais importantes que se apresentam na realidade.

Mais uma vez como intelectual orgânico da conciliação de classes lulista, Breno Altman se alça a formular perguntas para justificar a estratégia do seu ex-governo, de desenvolvimento “nacional” baseado no conluio público-privado. Desta vez, nosso pensador se lança contra a Operação Carne Fraca da Polícia Federal que desvelou a podridão da indústria de processamento de carne das duas maiores empresas transnacionais brasileiras, com a anuência do PP, do PMDB e do PT ainda no governo, com a grana do BNDES e dos fundos de pensão.

Em uma nota acanhada intitulada “DEVAGAR COM O ANDOR” lança o questionamento que rapidamente tornou-se comum entre os defensores do lulo-petismo:

“Mas não é de deixar com a pulga atrás da orelha que, logo após o tsunami policial responsável por destruir as empreiteiras nacionais, ramo mais internacionalizado e pujante da indústria nacional, agora seja a vez do segundo setor brasileiro com mais protagonismo mundo afora, o de processamento de carnes”?

Certa vez o historiador marxista Edward Thompson escreveu que Althusser era uma fonte inesgotável de erros. A sorte de Altman é que Thompson não deve ter conhecido seus questionamentos, pois ele ganharia o posto imediatamente, já que passa longe do talento do filósofo francês.

Segundo Altman, a operação seria uma forma de enfraquecer a indústria nacional e entregar estes setores ao capital internacional imperialista, nesse caso, a corrupção seria apenas um pretexto de uma grande conspiração contra as empresas que ajudaram o governo petista a desenvolver o país. O que fazer então? Defender as empresas que vendiam carne podre com produtos cancerígenos? Defendê-las representa primar pelo interesse nacional? De quem mesmo? Trata-se de uma mistificação tão grotesca que deveria dar vergonha aos que a levam a sério, tanto quanto a Toni Ramos por fazer propaganda da qualidade “confiável” da carne da Friboi.

O erro mais grave  – e que definiu o transformismo político do PT – está em pensar que o fato de ter capital nacional faz com que estes setores da burguesia sejam representantes de algum projeto nacional. De acordo com o trabalho de Virgínia Fontes[1] já em 2007 a JBS-Friboi tinha 81% de suas receitas provenientes de investimentos no exterior e 64,6% do total de empregos gerados pela empresa eram fora do país. Era a campeã em investimentos no exterior, seguida pela Odebrecht que a Operação Lava Jato já tratou de desmascarar seu modus operandi corrupto para se tornar “o ramo mais internacionalizado e pujante da indústria nacional”. Curiosamente ou não, também foram as duas empresas que mais receberam recursos do BNDES. De acordo com o próprio BNDES, o grupo JBS-Friboi pegou emprestados R$ 2,5 bilhões entre 2005 e 2014.

Para contribuir com a nação, desde que os recursos foram liberados em 2005 pelo BNDES a Friboi repassou R$ 463,4 milhões a políticos e partidos nas eleições de 2006, 2008, 2010 e 2014, o que representa cerca de 18,5% do que pegou emprestado. Em 2014, a JBS foi a maior doadora, seguida pela Odebrecht, R$ 111 milhões, e do Bradesco, com doações de R$ 100 milhões. Nesse mesmo ano, a JBS doou R$ 366,8 milhões às campanhas de Dilma, Aécio e Eduardo Campos. Claro que ninguém sabia que estavam lucrando com carne podre. Afinal nos banquetes do poder a carne é fraca e se come caviar francês. Definitivamente não é Friboi.

Se estes grandes cartéis ainda conservam algo de nacional, são as facilidades que o Estado brasileiro lhes concede com o nosso dinheiro para fazerem os melhores negócios no exterior, financiar a casta política e superexplorar a classe trabalhadora dos países vizinhos e mais pobres que o Brasil. De resto os lucros destas empresas são tão mundializados como qualquer outro oligopólio capitalista dos países imperialistas aos quais elas estão associadas.

A outra empresa grampeada pela Operação da PF, a Brasil Foods (BRF) é produto de uma fusão entre a Sadia e a Perdigão anunciada em 2009 e efetivada em 2011. Foi financiada pelo BNDES e pelo fundo de pensão PREVI, destinado originalmente à aposentadoria complementar dos trabalhadores do Banco do Brasil. De acordo com trabalho de Fernanda Melchionna[2] (2012):

Pela citação e participação ativa do BNDES e dos fundos de pensão que têm relação com a política governamental, podemos deduzir que houve empenho do Planalto para que a fusão fosse de fato concretizada(…) Na seção de governança corporativa da BRF, encontramos a Previ como um dos maiores detentores do controle acionário, contendo cerca de 12,76% junto com a Família Furlan, que detém a mesma quantidade de ações.

Luis Fernando Furlan, havia sido ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior de Lula, e justamente sai do Ministério e retorna à presidência da Sadia meses antes do anúncio da fusão. Também é sabido que a PREVI foi historicamente dirigida por quadros oriundos do PT e da CUT, como o caso do ex-ministro Palocci que era chefe da casa civil na ocasião. Os fundos passaram a ser utilizados como ativos financeiros na Bolsa de Valores e mecanismo de financiamento de obras do PAC, como a controversa Usina de Belo Monte. Tais fundos ganharam especial impulso após a reforma da previdência em 2003 feita pelo governo Lula. Aquela que nos expulsou do PT e parece que foi aprovada no Congresso por meio do famoso mensalão. Não é de deixar com a pulga atrás da orelha tantas coincidências?

A pesquisa de Fernanda revela ainda que a composição acionária da BRF tem pouco de “nacional”, como supõe o senhor Altman. Há muito capital estrangeiro e, especialmente, especulativo.

Fonte: Brasil Foods 2011. Relatório Anual 2011apud Melchionna, 2012.

Fonte: Brasil Foods 2011. Relatório Anual 2011apud Melchionna, 2012.

Para piorar, após a fusão, as empresas operaram uma reestruturação que intensificou ainda mais a exploração do trabalho. A BRF teve que pagar uma multa de R$ 100 mil ao Ministério Público por terceirização do abate de frangos em sua própria linha de produção e foi condenada a pagar uma indenização de R$ 6 milhões de reais por descumprir o descanso de 20 minutos necessários aos trabalhadores a cada 40 minutos expostos à temperatura baixa das câmaras frias.  De acordo com Bianchi e Braga[3] (2011):

A taxa de poupança privada é historicamente baixa [no Brasil] e a solução para o investimento depende fundamentalmente do Estado. Os fundos de pensão atuam nesta linha, buscando equacionar a relativa carência de capital para investimentos. O curioso é que, no período atual, a poupança do trabalhador, administrada por burocratas sindicais oriundos do novo sindicalismo, está sendo usada para financiar o aumento da exploração do trabalho e da degradação ambiental.

A defesa dos interesses nacionais passa muito longe da defesa do conluio público-privado. Há muito sabemos que a burguesia brasileira nunca se preocupou com um projeto de nação. Estas empresas são a expressão de um projeto subimperialista de duplo caráter: predomínio sobre os mais fracos e subalternidade aos mais fortes. Este definitivamente nunca poderá ser o nosso projeto nacional.


[1] Fontes, Virgínia. O BRASIL E O CAPITAL-IMPERIALISMO. Editora UFRJ, Rio de Janeiro: 2010.

[2] Melchionna, Fernanda. FUNDOS DE PENSÃO DIANTE DA MUNDIALIZAÇÃO FINANCEIRA: O CASO DA PREVI ENTRE 2003 A 2010. Monografia apresentada à Faculdade Porto-Alegrense para a obtenção do título de Especialista em História do Brasil Contemporâneo, Porto Alegre, 2012.

[3] Braga, Ruy; Bianchi, Álvaro. A financeirização da burocracia sindical no Brasil. In: www.correiocidadania.com.br/content/view/5816/9/. 30 Maio 2011.

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MES

Comentários

  • Só tem um detalhe essa tal investigação foi efetuada ao longo de dois anos. Dois anos! Segundo a PF. Durante dois anos a população comeu carne contaminada diante da cara da PF. Bonito né?

  • China, Índia, Vietnam e outros países produzem quase tudo, mas não conseguem produzir a quantidade de alimentos necessária para suas populações. Neste momento que o mundo atravessa, de “crise” de desemprego esses mercados devem de estar bem visados. O Brasil era um grande exportador de carnes, já no mais, obviamente isso vai gerar mais desemprego. Não sou tecnólogo, enxergando desde todos os ângulos, quem vai se ferrar de qualquer jeito é o povo. Tema amplio pra caramba, pensemos bem, destruímos a floresta para criar vacas e plantar soja para que as vacas a comam. Agora ficamos sem floresta e com carne podre. Este episodio e outros me lembra o Golpe na Argentina 1976. O general Jorge Rafael Videla, chefe da Junta Militar, nomeou José Alfredo Martinez de Hoz, , ministro da Economia e, em meio de sangrenta repressão política, executou outro radical programa de liberalização econômica, nos termos pactuados com o FMI, com o objetivo, entre outros, de liquidar a base social da CGT e do peronismo, mediante a desindustrializção da Argentina. A CGT seria a CUT. Argentina quebrou a industria aeronáutica espacial , o primeiro pais da américa a construir aviões foi argentina, a industria naval no atlântico sul e miles de fábricas. Eu vejo claro isso, morei alguns anos lá.
    A tecnologia avança o ser humano não, as historia o método todo se repete.
    Apenas meu ponto de vista.

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