Bahia

Nem Rui/Leão, nem ACM: é preciso superar os velhos e novos coroneis

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Escrito por MES

*Por Maíra Mendes e Linnesh Ramos

Quem tinha alguma dúvida há alguns dias, hoje já não pode hesitar: há uma profunda crise em andamento no país. A euforia em torno da lista dos citados na Operação Lava Jato (“Lista do Janot”) tira o sono dos políticos tradicionais, envolvidos até a medula com esquemas de propinas. Como bem denunciou Luciana Genro, é “o sujo falando do mal lavado”: quem sempre se beneficiou dos esquemas (PSDB, DEM, outros da direita tradicional), aproveita as fragilidades de um governo que se vendeu à lógica das empreiteiras, para tentar sangrá-lo. Mas essa velha direita não tem interesse de ir muito longe nas investigações, já que ela mesma também tem “rabo preso”: dentre os nomes indiciados, aparece o do ex-governador de Minas Gerais Antonio Anastasia (PSDB), coordenador da campanha do tucano Aécio Neves.

Na Bahia, uma desastrosa declaração de João Leão (PP), vice-governador, um dos citados na “lista do Janot”, foi a centelha que faltava para espalhar ainda mais a indignação contra o governador Rui Costa (PT). Ao ser questionado pela imprensa sobre sua citação na lista da Lava Jato pelo Procurador, João Leão disse estar “cagando e andando em cima desses cornos todos”. Frase digna de um coronel, que se crê acima da população e das leis. No entanto, mais asquerosa do que essa manifestação machista e desrespeitosa do vice, foi a carta branca dada pelo PT ao PP: subestimando a inteligência da população, Rui Costa afirmou que a declaração foi um ato de indignação de João Leão. Indignados estamos nós! Rui Costa e o PT deram maus uma demonstração clara de que lado estão.

Quem procura se aproveitar da situação, de olho nas eleições de 2016 (e também 2018) é ACM Neto, que aparece na mídia como única voz dissonante dessa cascata de absurdos na política baiana. Velhos e novos coroneis em cena.

João Leão aposta alto na impunidade da corrupção, porque sabe que o envolvimento do alto escalão dos partidos da ordem tende a unificar os coroneis do bloco governista e os tucanos/carlistas. Todos esses partidos do Congresso, com exceção do PSOL, foram financiados fartamente pelas empreiteiras, que cobram sua fatura em esquemas de privilegiamento em que a licitação é pura peça de ficção, tão falsas quanto as produções cinematográficas de suas campanhas eleitorais.

Quem paga a jogatina de poder entre esses dois aparatos PT e PSDB/DEM é o povo. O PT disputa historicamente a vitória da prefeitura na capital baiana, como um dos feudos mais importantes no processo de dominação do estado, haja visto sua maior inserção nos interiores. Enquanto isso, ACM Neto prepara sua banda para absorver as insastifações com o governo petista, mesmo sem moral nenhuma para isso. Tanto PT como DEM tem projetos onde a corrupção e o escoamento das verbas públicas são para a iniciativa privada. Em Salvador, abrimos 2015 com anúncios de corte de direitos pela esfera federal; corte de verba no estado da Bahia (mesmo este sendo o 6° PIB do Brasil), privatização da Empresa Baiana de Alimentos (EBAL), corte no funcionalismo público, além do aumento da passagem de ônibus e da privatização de uma das principais estações de ônibus da capital, a Estação da Lapa.

ACM Neto também utiliza do aparato do poder no Estado para beneficiar seus colegas. Mesmo com a denúncia de nepotismo em curso, a Empresa que venceu a licitação para construir e barganhar concessões sobre a nova estação da Lapa, é a empresa do marido de sua prima legítima, a AXXO Construções. Sem falar na construção da Linha Viva que desabrigará mais de 300 moradores.

Nesta disputa de poder, os dois blocos tentam confundir a população no discurso do “menos pior” ou do “quem rouba mas faz”. A verdade é que enquanto isso, estamos nós pagando mais caro pelo transporte, mais caro nos alimentos e na energia, sem segurança no futuro diante do mundo das incertezas, do crescimento do trabalho informal, na genocídio da juventude negra e pobre, na falta de escolas e hospitais públicos e de qualidade.

Entretanto tempos de crise política dos de cima são sempre tempos de oportunidade para os de baixo. Os mares da história estão agitados, e quem hesitar escolher de que lado está vai se afogar. Numa semana em que a direita golpista procura articular uma passeata pró-impitimam, setores da esquerda cedem à chantagem de um governo que veio a público anunciar um apertar de cintos ainda maior para pagar as contas do setor financeiro. É realmente lamentável que alguns setores combativos dos movimentos sociais cedam à chantagem do governo, que acena com uma mão cheia de benesses ao PP e afaga a polícia que executa 12 jovens da periferia de Salvador. Afirmar que pode ainda haver uma inflexão a esquerda deste governo só pode significar ingenuidade ou má-fé, no intuito de silenciar as vozes descontentes que buscam uma alternativa a essa bipolaridade de conveniência.

É preciso aproveitar o momento que vivemos para denunciar os benefícios de que empreiteiros e banqueiros tem usufruído há anos, não só com Lula e Dilma, mas também com FHC. É necessário e urgente o fortalecimento de uma esquerda que vá a fundo nos problemas que envolvem a apropriação do Estado pelos empresários, que denuncie a tentativa de repassar para o funcionalismo público a crise econômica decorrente deste modelo. Em meio a anúncios presidenciais de ajuste fiscal, e no contexto baiano de arrocho nos serviços públicos, sobretudo educação, precisamos de uma postura clara de defesa de nossos direitos.

Não podemos ceder às chantagens dos antigos e novos coronéis no estado. É momento de firmar nossas convicções e reivindicações. O PSOL é orgulhosamente o único partido que não está envolvido nos esquemas de corrupção, e que pede o afastamento dos parlamentares acusados dos seus cargos públicos. Precisamos fortalecer um bloco de esquerda que esteja de acordo com o que vivenciamos em junho. Chega de corrupção! Queremos educação, transporte e saúde pública de qualidade!

O exemplo dos servidores do Paraná, que fazem uma greve geral e já conseguiram fazer o governo recuar, nos inspira. Que aqueles que acreditam ser necessário vencer os velhos e novos coronéis repitam o junho de 2013. Nenhum direito à menos!

*Maíra Mendes é professora da UESC e militante do PSOL/BA
Linnesh Ramos é professora da UEFS e militante do PSOL/BA

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