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A luta racial nos EUA: uma guerra começa e estamos em formação

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Escrito por MES

Por Tatiane Ribeiro, militante do Juntos Negras e Negros.

 

Desde 2014, os EUA vivem um momento muito importante na conjuntura. Respondendo aos constantes ataques da polícia contra a vida de negros, o movimento racial deu respostas massivas. Seja nos atos de milhões de pessoas em diferentes cidades, seja na entrada cada vez mais forte de lideranças negras na política institucional. A verdade é que hoje, sem dúvida, é nos EUA que se encontra o centro da luta pelos direitos da negritude. Com campanhas como “I can’t Breathe” (Não consigo respirar) ou “Black Lives Matters” (Vidas Negras Importam), o debate sobre o genocídio negro está no centro de todos os debates.

Protester march for Eric Garner who was killed one year ago by police in New York July 17, 2015. Family and supporters on Friday marked the anniversary of the police killing of Eric Garner with rallies and vigils demanding police reforms and justice in the controversial case. REUTERS/Eduardo Munoz

REUTERS/Eduardo Munoz

E é nesse cenário que se encontram duas importantes demonstrações de que o tema seguirá forte no país: o apoio da filha de Eric Garner (assassinado pela polícia em Stanten Island) ao socialista Bernie Sanders (Partido Democrata) e a apresentação de Beyoncé no aniversário de 50 anos do Super Bowl. Não há como negar que existe ligação entre os dois eventos. Nem que se trata de uma virada histórica na luta racial estadunidense.

Desde os assassinatos mais noticiados em Baltimore e Ferguson, a população afro-americana tem saído às ruas a cada nova morte. Trata-se de uma retomada da luta pela igualdade racial a tanto tempo “silenciada” pelo sistema de guetização com que as diferentes etnias se estabelecem no país. Com bairros de negros, bairros de latinos e bairros da classe média, os mais pobres são completamente apagados dos noticiários e da política. Não mais. Agora, eles querem direitos, querem ter suas vozes ouvidas. E esse processo está se desenvolvendo no país inteiro, mesmo com a resistência da classe dominante e dos conservadores que tem como seu porta voz o Partido Republicano.

<> on December 11, 2014 in New York City.

Erica Garner

A verdade seja dita: se no Brasil dizemos que não basta a Dilma ser mulher para representar os interesses das mulheres, acreditamos que também nos EUA vale a mesma premissa. Apesar do segundo mandato de um negro, Obama não atende aos interesses dos negros estadunidenses, afinal, governa para os interesses do imperialismo e dos grandes capitalistas. E é por isso mesmo que o apoio de Erica Garner (filha de Eric) à Bernie Sanders é uma mostra de que é preciso mais do que apenas representar nas aparências. Sanders tem conseguido conquistar setores antes desacreditados da política, como a população mais pobre e também a juventude. Com um discurso que não tem medo de colocar dedos nas feridas e falar sobre socialismo e a situação da população negra, Sanders conquista cada vez mais admiradores e apoiadores dentro dos movimentos sociais. Não a toa, em 18 horas, ele conseguiu doações de 15 mil pessoas físicas em sua campanha de prévias, após sua vitória em New Hempshire.

O fenômeno Sanders só explica de uma maneira: os 99% da população que mais sofre está cansado de sofrer. Quer voz, quer vez e quer mudanças. E sabemos qual é a cor majoritária dos 99%: negros. Uma coisa não se explica sem a outra. A campanha de Sanders não seria o que é sem que antes as campanhas contra o genocídio negro abrissem o caminho para uma nova onda política. Sem que esses saíssem às ruas, mostrassem que não podemos mais manter as coisas como estão, sem dúvidas Hillary já teria, como falamos por aqui, comido Sanders com farinha. Mas não se trata mais das mesmas formas de fazer política: se já na campanha de Obama existia um sentimento de mudança, de representatividade para a população negra, agora é a hora do tudo ou nada. Nada poderá ser como antes.

Beyoncé e as panteras “em formação”

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Dançarinas de Beyoncé caracterizadas e de punho erguido como os Black Panthers

 

E já que nada poderá ser como antes, a indústria cultural também não é mais a mesma. E é nessa nova era política negra que o clipe “Formation”, de Beyoncé, aparece. Um clipe político, que faz menção à Martin Luther King (dizendo que era mais que um sonho), Malcon X e as vítimas (de maioria negra) da falta de políticas públicas depois do furacão Katrina. Um clipe que coloca mulheres negras nos lugares das mulheres brancas, que fala sobre a beleza negra e, no fim das contas, diz que não vamos mais dar um passo pra trás.

Beyoncé é uma mulher negra que carrega em si toda a contradição da indústria cultural estadunidense. Afinal, a indústria vende homens negros gangsters e mulheres negras que balançam bundas. Objetos sexuais. Beyoncé, com letras de fortalecimento das mulheres, já se declarou feminista dezenas de vezes (incluindo um banner FEMINIST em um dos seus shows). Mas em sua nova música, ela extrapola tudo isso. Se entendendo enquanto uma mulher rica e, assim, com privilégios, ela retorna às suas raízes para dizer que estamos em formação. As mulheres negras estão em formação de guerra. E a formação é em X, para homenagear os que nos antecederam. E é vestida de Pantera, porque muitas lutaram e morreram para chegarmos onde chegamos.

E não apenas o clipe mostra tudo isso, Beyoncé foi além. Na apresentação do intervalo do maior evento esportivo do mundo (o SuperBowl), ela se apresentou com suas dançarinas vestidas de Panteras Negras, repetindo a formação em X e falando sobre racismo em rede nacional (e internacional). Beyoncé XO espaço está aí: uma grande mulher que sabe que pode levar e repercutir o tema racial para além de algumas dezenas e chegar no mundo inteiro. Entendendo-se como uma ferramenta, e não a portadora das boas novas. Apesar de vários movimentos de esquerda terem criticado sua tentativa de “roubar o protagonismo”, Beyoncé mostrou a importância de termos dentro da indústria cultural grandes aliados.

Falar sobre racismo no evento esportivo que tem maior audiência no mundo todo, ao vivo, é mostrar que não há mais como esconder que existe um estado de guerra racial nos EUA. Se em Baltimore, um dos candidatos a prefeito da cidade (Mckesson) surgiu como uma liderança do movimento Black Lives Matters, muitos outros surgirão. Alguns pela política institucional, outros tantos nas ruas e alguns, por que não, nas televisões cantando que estaremos em formação contra o racismo e por políticas que mudem radicalmente a vida desses 99% que morre todo dia na mão da polícia.

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